
PARATY – A história da música tradicional caiçara, muitas vezes contada sob uma perspectiva masculina, ganha novos contornos e cores através da trajetória de Karina Braz. Ao completar 32 anos de carreira em 2026, a artista não celebra apenas a própria jornada, mas faz questão de saudar as raízes que a sustentam: as mestras, bisas, avós e mães do território.
Nomes como Dona Maria Júlia, da Ilha da Gipóia (Angra dos Reis), Dona Elisa Cirandeira (Paraty) e Dona Lauriana (Ubatuba) são citados pela artista como fontes fundamentais de inspiração. "É a minha fonte", resume Karina, que hoje se posiciona como um elo vital entre a ancestralidade e a música contemporânea.
Uma Obra Aberta e Plural
Embora profundamente fincada no chão caiçara, a obra de Karina Braz é caracterizada pela pluralidade. A artista circula com naturalidade por gêneros como a Canoa, o Baião, o Xote e o Pop, criando uma sonoridade que reflete a diversidade do seu território.
Essa versatilidade rendeu frutos sólidos na última década. Em 2018, lançou o EP autoral Maré Cheia, seguido por Tempo, em 2020. O reconhecimento nacional veio em 2022, quando seu nome foi inserido no prestigiado Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, um marco para a salvaguarda da cultura local.

Cultura, Afeto e Acessibilidade
O ano de 2023 foi especialmente prolífico para a artista. Durante a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), Karina apresentou o pocket show Território do Afeto, um projeto que une canções voltadas aos Povos Tradicionais e um forte compromisso com a acessibilidade.
O projeto expandiu-se para além dos palcos com o lançamento de quatro livros no auditório Paulo Freire, no Instituto de Educação da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Em 2024 lançou a música e o vídeo clipe: Nossa Canoa ritmo que embala os bailes caiçaras da região. Em 2025 lançou na TV Rio sul o vídeo clipe Martins de Sá
Ativismo e Lançamentos em 2026
Para este ano, a novidade é o EP Os Guardiões da Floresta. Consolidando a produção autoral da artista como um espaço de fala da mulher caiçara.
Além da música, Karina mantém uma atuação vigorosa nos movimentos sociais e ambientais de Paraty. É madrinha do projeto sustentável "Não jogue seu óleo pelo ralo", integrante do Coletivo: Produtora Caiçara e desde 2016, é também parceira do Circuito Off FLIP, reforçando seu papel como gestora e articuladora cultural.

O Valor da Herança
Para os estudiosos da cultura local, o trabalho de Karina e o reconhecimento das mestras que a precederam são passos fundamentais para a preservação da identidade regional. Como destaca o texto de Roberta Lobo, dar voz e reconhecer as mulheres caiçaras é, acima de tudo, dar valor à música que nasce da dança e da vida comunitária, formando a base do que hoje conhecemos como música tradicional brasileira